Antes que esse texto fale de “Ai, Se Eu Te Pego”, é preciso cautela para que a soma de elementos óbvios (e outros nem tanto) sejam antes mencionados. Posto que tenha entrado nessa dança até mesmo a frase Tom Jobim (“fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal”), é de bom tom perceber que parte da música brasileira vem sendo feita com cuidado e um esmero profissional para soar plural. Incorpora, se necessário. Traduz, se necessário. Internaliza, se necessário. O resultado vem sendo magnífico e lucrativo pra quem entendeu isto: ouvintes, produtores e artistas.

“Na Balada” tem muita música. São 15 e, por isso mesmo, não me refiro a quantidade. Tampouco, por ora, faço referência a uma suposta altíssima qualidade das gravações. Muita música é porque cada faixa é a explicação exata de fenômenos anteriores do pop brasileiro. Por cronologia, o último é “Tá Vendo Aquela Lua”, do Exaltasamba.

À primeira luz, são 11 anos de Michel Teló à frente das iniciais vaneiras do Grupo Tradição, sendo que os derradeiros atos dessa relação foram embalados pelo último conjunto de reinterpretações do cenário pop brasileiro, aquilo que carregou o rótulo de “sertanejo universitário”. Dois mercados que, há 30 anos, seriam isolados geograficamente e fornograficamente. Hoje, basta enxergar que, no interior de Minas Gerais, Victor Chaves (de Victor & Léo) compunha após ser inspirado por canções de Djavan; que o crooner do Exaltasamba, Péricles, é fã de soul music e, por tabela, de Tim Maia. MPB.

Este mesmo Péricles é ouvido em feiras agropecuárias, nos intervalos de um show para o outro em uma micareta ou em um show feito por bandas iniciantes (de qualquer gênero). Espanta a frieza de termos publicado milhões de artigos explicando fenômenos como Harry Potter – filho dessa categoria em que tudo (todos) se faz(em) possíve(is)l num mesmo roteiro, e não termos conseguido alcançar esta mesma frieza na hora de nos interpretarmos como produtores de produtos estritamente pop.

Mas não é preciso derivar as equações de produtores de fenômenos como Rick Bonadio (ou, no caso, de Dudu Borges ou Ivan Miyazato) para entender o que temos em todo o pop brasileiro (de todo o sempre). São crônicas. Então, estamos de volta a “Na Balada”, terceiro álbum deste carismático cantor, dançarino e que, portanto, não espanta quem sabe somente agora que, ainda moleque, ele já tinha ao seu lado os mesmos parceiros que tem neste exato momento de sucesso; que apresentara um programa de televisão (substituindo a igualmente loira Eliana) no SBT e que, portanto, sua explosão era questão de jeito.

Dudu Borges, atual produtor de Michel Telo: “Era um caso complicado. Passou a vida inteira fazendo ‘batidão’ no Tradição. A gente fez a ‘Ei, Psiu! Beijo, Me liga’ e foi muito bem. Vai falar que não foi hit? E ‘Fugidinha’, a gente que achou. Eu liguei pro Rodriguinho (ex-Os Travessos, atual parceiro de Thiaguinho, ex-Exaltasamba), que é meu amigo e que já tinha me ligado quando viu o movimento sertanejo crescendo. Falou pra mim ‘ó, quando precisar de música me liga’. E aí, chegou ‘Fugidinha’. E era inédita. A gente fez no risco. O Michel precisava disso. De algo que todo mundo vai falar ‘cara, o que aconteceu?’”.

O que vinha acontecendo é traduzido numa quadrilha drummondiana: Teló que conhece Miyazato que produz Luan que pertence a Sorocaba que era produzido por Miyazato que não produz mais Fernando & Sorocaba porque voltou a trabalhar com Teló que tinha ficado a cargo de Dudu Borges. E aí, depois disso, não fica difícil. Preste atenção nos títulos das músicas e/ou crônicas deste tempo que estão em “Na Balada”:

“Ai, Se Eu Te Pego” é de cantora Sharon Acioly, da boate baiana Axé Moi e todo mundo já conhece o riff característico. “Humilde Residência”, hit que poderia ser de qualquer outro cantor teen mais sudeste de “Malhação”, fala de dar moral, cursinho, faculdade, celular, fazer amor e paciência porque a cama tá quebrada e não tem cobertor. “Vamo Mexê” vai passando a agenda, nome a nome de cada peguete e a respectiva situação de cada uma. “Se Intrometeu” e “Fugidinha” são da dupla Rodriguinho/Thiaguinho. “Se Intrometeu” é um pagode clássico (aqui, com safona). “Fugidinha” dispensa comentários. Foi ouvida de cabo a rabo no país (estava também no último disco ao vivo de Teló) e não poderia ser mais didática ao explicar relacionamento de balada.

Depois disso, já é goleada. Se o lateral-esquerdo não apoiou muito bem durante o jogo (“Vida Bela Vida”, “Pensamentos Bons”, “Ponto Certo” já existem com outras letras por aí) ou se o volante é brucutu (“Coincidência”, “Se Eu Não For” e “Pra Ser Perfeito” preenchem a cota romântica e são figurinhas carimbadas nas vozes de outras duplas, e “Te Amo Open Bar” vai na onda bróder-guettiana e é uma das piores músicas já feitas neste início de década), isso acaba afetando o rendimento do produto apenas em análises do álbum como um todo. Nesse momento, o CD/DVD já vendeu algumas dezenas de milhares de cópias e já está sendo comprado por milhares de comerciantes em camelôs para que possa ser rodado no horário comercial. O mérito é de quem entendeu o funcionamento mecânico e singular das rádios brasileiras. Mais uma vez na quadrilha, este “Na Balada” fora financiado pelo sucesso de “Fugidinha” que fora financiado por “Ei, Psiu…” que fora financiado pelo esforço da Som Livre em lança-lo em carreira solo.

Acima disso tudo, em uma espécie de resumo, “Na Balada” é pop porque faz o que a música gospel não fez por Dudu Borges, ou seja, o aceita como parte integrante independente de sua origem. E aí, novamente, estamos diante de alguma pluralidade que justifica uma sequência de acontecimentos. A grande questão é debater como é que estão fazendo uso dessa pluralidade. De fato, é ocasional e de acordo com os interesses vigentes. Mas “Na Balada” não existe para resolver isso. Apenas para jogar mais lenha e dinheiro na fogueira.

  • Luiz Claudio

    Na forma cronológica e inteligente como foi descrito o álbum, vejo que o cd/dvd tem uma qualidade e uma posição importante nessa retomada de qualidade da indústria fonográfica no Brasil.

  • Acho que qualquer disco, se analisado dentro de um contexto histórico-cultural, receberá elogios. O fato é que, se avaliarmos tecnicamente a música pop nacional, veremos que esta pasteurização de gêneros não trouxe um acréscimo, ao contrário, tornou nossas letras, nossas melodias/harmonias e nossos arranjos ainda mais rasos.

    Gente esperta, como o Dudu Borges – que eu conheço e respeito pela remodelação promovida na Banda Resgate – e o Teló, vão se aproveitar disso para produzir na linha tênue do que é aceitável. E talvez, o mérito deles seja exatamente este: acertar a mão no que se propõem a fazer.

    Mas, sendo bem zé mané – e olhando para fora do País -, será difícil aceitar o Teló como pop e elogiá-lo enquanto tivermos um John Mayer da vida, canastrão e popular, mas que produz música em um nível técnico elevadíssimo.

    No mais, o texto está irretocável, Yuri. E ri demais com a referência “drummondiana”.

    • Yuri de Castro

      É isso.

      Quando o Dudu compara os dois meios (que, muita gente não sabe, mas ainda que seja só música, o tipo de comportamento técnico é muito diferente) e diz que um lado ainda precisa aprender muito com o outro é porque há uma coisa básica no pensamento de quem quer ganhar dinheiro: aglutino não porque te gosto, mas porque te preciso. O gospel batista/presbiteriano ainda não aceita o samba, o forró. E o pop não pode ter nojinho (se bem que, pelo menos no RJ, tem um monte de rádio mpb light que toca esses pop com nojinho). ;))

      • O problema do meio gospel é que toda mudança esbarra na velha questão Sagrado x Profano. A renovação conceitual da música gospel começou nos anos 80 com um grupo chamado Vencedores por Cristo, que investiu em bossa nova e ritmos ditos brasileiros.

        A discussão é muito recente. Conceitualmente, estamos muito atrasados. As gravadoras, no entanto, se profissionalizaram, criaram um modelo comercializável e os artistas não entenderam que ser igual a todo mundo e fazer sempre o mesmo não é bom.

        Neste processo, convencionou-se que um disco é sempre “uma bênção”, “uma vitória”, “um presente de Deus”. Enquanto não aprenderem a valorizar a arte em si, caras como o Dudu Borges serão sempre jogados para escanteio.

        Bom é quem sempre tuita elogiando os parceiros de gravadora, mente que só ouve música gospel e que toda a inspiração do disco vem de Deus – enquanto plagia arranjos seculares – e segue por esta linha rasa do que todos estão habituados a degustar.

        • Yuri de Castro

          Exato.