As formas que o Of Montreal usou em “Paralytic Stalks” passam por músicas curtas, com menos de três minutos, até extenuantes de treze. O tempo não pode, nem deve, servir de base para avaliar como uma banda faz sua música. Existem músicas que beiram a perfeição e pedem uma experiência maior, outras são extremamente sacais com menos de quatro minutos. Mas usar esse parâmetro para o novo álbum do Of Montreal é necessário para pesar algumas decisões artísticas da banda estadunidense.

As cinco primeiras faixas do disco somam cerca de 20 minutos, representam menos da metade de disco, que tem uma hora. Porém, em menos tempo, é ali que se concentra a nata da produção.

Primeiro com “Gelid Ascent”, a música de abertura, tanto confusa quanto instigante. No início, uma voz comprimida vai tomando forma junto com a estrutura melódica. Os efeitos geram uma camada superior que unifica o aspecto dos sons, numa crescente a cada reverberação da voz que se junta. Ao final, um surpreendente solo de guitarra é camuflado por essa estrutura em que tudo é audível, mas com uma divisão de ordem prioritária clara. A camada dos efeitos, nutrida de ruídos e tons agudos diversos, chega primeiro, para depois o baque com um solo que merecia um volume mais alto. O contrassenso não gera insatisfação, cria uma sensação ímpar de ouvir a guitarra depois de choque com a parafernália eletrônica, num jogo muito bem pensado.Essa opção estética singular dos efeitos permanece na sequencia. “Spiteful Intervention” é mais pausada, sem guitarras explícitas, e com mais atenção para a voz de Kevin Barnes.

“We Will Commit Wolf Murder” é cheia de alegorias. Estrutura-se uma confissão surrealista, o cabelo ensanguentado e a crise por medo da vitimização. Faz sentido? Nenhum, para acompanhar a ilógica proposição, criaram uma mapa sonoro que segue o roteiro da letra. Dentro de uma base com compassos acelerados na marcação da bateria, mescla-se a voz com passagens mais sóbrias e lentas com agudos não-histéricos, mas que denotam um desespero lúdico. O charme de um arranjo de cordas sintetizada precede uma virada completa na final da música, em que uma guitarra distorcida surge com uma verve mais dark. Nos últimos segundos, a situação se clareia para a felicidade como se uma droga acabasse de fazer efeito. É a ponte para a alegre “Malefic Dowery”, que serve como divisão para indicar a parte longa do disco adiante.

Então brotam os exageros do Of Montreal. Sem muito a acrescentar, talvez fosse melhor fechar um EP ao propor um álbum inteiro. Voltando ao problema do tempo, aqui temos uma questão clássica de falta de síntese por medo de não se achar uma conclusão. “Wintered Debts” poderia ter três ao invés de sete, mas a opção foi de extenuar uma repetição de elementos bem semelhantes àqueles já citados em outras músicas do álbum; e até da própria música. São elementos em excesso e sem propósito. “Exorcismic Breeding Knife”, “Authentic Pyrrhic Remission” batem no mesmo clima sacal, nada recompensadoras pro ouvinte que se aventurou a chegar até aqui. Estender as músicas foi o único jeito encontrado pelo of Montreal de satisfazer seu fetiche experimentalista. Pena que comprometeu, e muito.

Houvesse mais sagacidade para medir suas canções, “Paralytic Stalks” poderia ter mais acertos. A conjuração infeliz de músicas chatas em seu final esconde os acertos do início do disco. Ou faltou tato para moldar um conceito, ou essa desgovernança era o objetivo. Se a segunda hipótese é correta, não colou.

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