Patti Smith | Banga

Patti Smith

Banga

[Columbia; 2012]

6.2

ENCONTRE: iTunes

por Túlio Brasil; 14/06/2012

A militância própria não é uma luta individual. O engajamento hoje se aproxima antes da ironia do que da luta: o objetivo utópico na ambição de um é estímulo ao deboche de outro. Isto, internalizado “na causa a favor de si”, funde o problema com a pretensão. Cria-se uma zona de conforto pessoal e, dentro desta perspectiva como indivíduo, tratar do outro é falar mais ainda sobre si. Assim faz Patti Smith aos 66 anos para defender sua carreira. “Banga”, lançado após oito anos sem um álbum de inéditas, é mais uma bandeira de canções fortes e pretensamente mobilizadoras.

A maturidade faz bem e não deixa o disco desandar. Ponderada, ela começa leve nas primeiras “Amerigo” e “April Fool” e ganha seu contorno punk imediatamente em “Fuji-san”. Essa última, um tributo às vítimas do terremoto que atingiu o Japão, precede o poema musicado dedicado a Amy Winehouse em “This Is The Girl”. De cara, duas referências nítidas, em que uma vai muito bem (“Fuji-san”) e outra cambaleia (“This Is The Girl”). Uma prova de como o jogo de signos no álbum prevalece sobre qualquer inventividade sonora. E é este embate o que empata o jogo.

“Banga” é a versão soft-rock do punk. Junto ao fato de ter uma poeta como líder, paira um spoken-word velado no modo de cantar as músicas. Uma medida boa, que varia e não deixa o clima sacal, mas essencialmente é uma formação assaz defensiva. As faixas se põem numa circunferência para preservar uma unidade. Seus pontos altos soam como elementos de coesão e os vacilos passam como um filler nos seriados. Sem asco que faça o ouvinte pular uma música ou desistir da audição, “Banga” é um álbum bem feito que carece de função na benfeitoria.

A faixa título cria um contraponto de peso maior. Curta e rápida, Patti canta rouca, uivo de lobos nos fundos, e grita indignada no refrão. Não dura quatro minutos, uma economia mínima de visceralidade. Não se anseia aqui um surto headbanger, e incomoda a sensação de a música estar fatiada para não “vingar”. O estilo é presente com classe, o que está ausente é uma vontade de recriar os temas.

O maior charme deste disco está na última faixa. O cover de Neil Young com “After the Gold Rush” é uma pérola. O diálogo de referências com seus signos autorais (“ideias”, que seja) atinge a plenitude. Calma, ela canta basicamente sobre uma base de piano e dois acordes de violão. Como quem conta uma história às crianças, faz uma narrativa lenta e as convida para falar no final. O coro infantil entra antes do fade-out que finda o álbum com uma despedida sensível.

Fiel a seu estilo, Patti Smith lança “Banga” como mais um alicerce em boa discografia. Um jogo de canções que funcionam muito bem como repertório. embora falte um pouco de pujança para provocar catarse.

  • ffiggie

    Falou, falou, falou e não disse nada, amigo. Um pouco de descontração faria bem ao seu texto, inclusive. Não dá pra resenhar disco na vibe “dissertação”, especialmente quando o tema é Patti Smith.