“É estranho. Você admira, mas, em um reflexo primitivo, cerra temerosamente os olhos tentando enxergar algo que irremediavelmente está por vir. Então, as veias pulsam pedindo arrego e uma avalanche de boas intenções invade o fluxo de sangue emanado pelos músculos”.

Do outro lado da cidade, existem substâncias mais pesadas. Sem muito alarde popularesco — e há mais de uma década, outro tipo de maquiador de realidades vem sendo consumido desse lado de cá, para onde o Cristo Redentor está de frente. O relato que abre este texto é normalmente acompanhado de outras exclamações. “É leve, …”, afirmam os compradores satisfeitos que, balbuciando referências, completam: “é tão… brasileiro!”. Por ser, ainda, mezzo popular, ganhou a alcunha de MPB Light. À primeira vista, não faz mal, não incomoda e ainda gera tributos ao mercado interno (diz-se à boca miúda que, se a USP ou a UFRJ fossem realmente um maduro antro de intelectualidade, conseguiria enxergar nessa causa uma, aí sim, verdadeira luta).

O conceito deste gênero é notado já na lata. Seguindo o molde pero no mucho dos primos pobres da favela — que são embalados com referências imediatas (um pacotinho de crack acompanha o sorriso do Ronaldinho Gaúcho ou então um papelote de cocaína embala-se junto com o rosto de Amy Winehouse), estes têm uma estampa que é de aspereza zero, tanto quanto o produto em si. Clara e clean (também para se assemelhar ao produto), anuncia-se sempre com um título que os produtores retiram de uma engenhoca conhecida como gerador automático de títulos. Instaladas em shoppings, as pequenas docas de descarregamento do produto destramente exibem vários modelos.

O detalhamento de cada um dos produtos pode ser lido em relatos hábeis do jornalista Mauro Ferreira, em seu blog. Aqui, vamos nos ater a um dos mais recentes lançamentos do gênero: “Segunda Pele”, de Roberta Sá (este é embalado pelo selo MP,B – Muito Prazer, Brasil).

De fato. Ao que surge o piano, o momento inicial é tal como nos fora relatado. Com a embalagem em mãos, é provável que você procure os criadores dessa experiência. Os sopros da Orquestra Criôla se juntam a voz limpa de Roberta Sá [em “Lua”] e, exaltado, já me via gritando bravo, clássico ou algo assim com o adentrar do acompanhamento rítmico d’A Parede (que, aqui, está apenas hipoteticamente sem Pedro Luís, pois assina a canção junto com Mario Seve – gravada nesta parceria em “Casa de Todo Mundo”).

Logo após a canção, é inebriante tentar resistir à repetição de “Lua”. Quem consegue, prolonga as sensações. Já quem não segue este ritual, alcança com facilidade a faixa-título que já é a segunda [segunda faixa, segunda pele – apenas estilo, não criminosos] e, por conseguinte, entende todo o meio-de-campo, o que pode tirar um pouco do brilho da experiência.

“Bem a sós”, terceira faixa, traz por demais a voz de Roberta Só à frente da música. Não é apenas um aspecto técnico. A canção provavelmente é um manifesto que resenha o próprio álbum – deixa na poeira os analistas econômicos que ainda tentam entender os movimentos do mercado gerado pela MPB Light. Com impagável encaixe conceitual, o disco acolhe a canção de Rubinho Jacobina que parece descrever passo-a-passo cada etapa de preparo e também a comoção que estes produtos e suas substâncias trazem à cidade e a seus consumidores.

A primeira estrofe poderia ser dedicada a uma análise de mercado do ponto de vista dos produtores. A deixa é o último verso com a amostra de um dos efeitos da substância, a cegueira momentânea

Se tem muita gente é tanto melhor pra nós
Quando a coisa é quente já estamos bem a sós
No meio da rua tudo é tão popular.
Se eu me vejo nua, ninguém pode reparar.

Já o refrão encara uma metalinguagem e poderia ser tranquilamente os versos do jingle da campanha publicitária. Com um diretor de comercial de cerveja, não seria impossível com:

Olha, não precisa ter vergonha
Não precisa olha pra baixo
Eu só quero te beijar, vem!
Olha que gostoso o beijo na multidão.

Os versos seguintes são uma reflexão sobre o porquê da popularização da MPB Light. A leveza, a busca rasa, enfim, o que precede a cegueira, está aqui:

A felicidade mora na satisfação.
A nossa vontade vem da nossa solidão.
E aquela pessoa pensa em ser feliz também:
Leva a vida boa sempre procurando alguém

O bis é o começo da depressão pós-uso. Há um eu-lírico mais reflexivo. No entanto, o último verso propõe que este mesmo eu-lírico voltou a ingerir novas doses, sendo tomado novamente pelo otimismo.

Olha, todo mundo ao nosso lado corre pra chegar na frente
E nós dois aqui atrás
Como é saboroso, alimenta e satisfaz

Roberta Sá confessa ter dado passos à frente, em busca de uma popularidade maior do que viveu em seus últimos quatro (um deles, ao vivo) trabalhos. Não há incoerência. Sem contar “Sambas e Bossas” [debute patrocinado por um empresa de embalagens (a referência é não intencional, creio)], o que foi visto e ouvido em “Braseiro”, “Que Belo Dia Pra Se Ter Alegria” e em “Quando o Canto é Reza” é uma artista que parecia por opção não ameaçar outros tipos de mercado.

Ao que parece, o eterno caminho do selo pra banquinha, da banquinha pro CD Player do carro (ou do selo pro 4shared, do 4shared pro iPhone a caminho da universidade) cansou a ambição da artista. Mas a insatisfação é pouco notável em “Segunda Pele”. Sua ambição, nas próprias palavras da cantora, de não ser “cult internacional” e sim de “chegar a um público mais popular no Brasil” chegou apenas aos releases da assessoria. Talvez Roberta não tenha avisado a seus pares – e a si mesmo.

Tal como tudo atinge nosso sistema nervoso, “Segunda Pele” entorpecerá – como seus pares contemporâneos de títulos que revelam o atual momento do artista conquanto tão genéricos sejam; agradará – a quem se explica dizendo que gosta de qualquer música contanto que seja boa, aos parceiros de composição que poderão ser divulgados pela belíssima voz de Roberta em alguma novela; servirá – como uma espécie de estandarte (ou justificativa) para um processo de amadurecimento no lançamento do próximo álbum de sua carreira; mas não trará Roberta à luz da popularidade apenas pela música em si contida. Talvez, a melhor saída para um entendimento melhor e mais amplo, seria assumir de vez esta estética branca (e branda e tão carioca-Rede Globo) que tomou conta das rádios adultas do país. Aliás, é por conta disso que os fascinantes Ballaké Sissoko e Vincent Segal, um do Mali e outro da França (e que vieram ao Brasil em 2011 para uma belíssima apresentação gratuita no Festival Mimo, em Olinda) soam tão genéricos em “Pavilhão de Espelhos”.

Enquanto isso não é feito e emula-se um instinto natural de brasilidade nesses fonogramas da boa intenção, só mesmo um Maneco Carlos e uma Helena para levarem Sá ao palco do Domingão do Faustão ou qualquer outro palco que englobe este popular que está em sua mente.