Pra que nos serve a crítica? Jorge Mário, o Seu Jorge, tem cara de quem se irrita com crítica. Eu bem acho que tá certo ele.

Conta um tio meu que Jorge Mário era seu melhor amigo em uma escola da Baixada Fluminense, região suburbana carioca. Basta que Seu Jorge apareça na televisão para que meu tio conte isso de um jeito entusiasmado – ainda que frustrado por nunca ter achado nenhum Jorge Mário correspondente ao Seu Jorge na época do Orkut. A ligação do meu tio com o Jorge Mário explica tudo. Embarque comigo.

Ainda no Farofa Carioca, Seu Jorge ocupou o imaginário de um tipo muito especial de carioca suburbano. É um tipo de carioca que transitava muito bem pela diversidade da música radiofônica. Ouvia Paralamas do Sucesso na maldita Fluminense FM, mais adiante foi ter um álbum do Nirvana ou do Pearl Jam, não recusava uma MPB sofistiqué meio Adriana Calcanhotto ou Djavan, namorou uma menina que sonhava em cantar como a Marisa Monte e, claro, esbravejava toda a sua condição de homem heterossexual politicamente consciente com as letras do Cidade Negra pré-Toni Garrido. O auge deste maravilhoso tipo de carioca foi o surgimento d’O Rappa e de um branco chamado Marcelo Yuka, que abriram as portas para que o Rio de Janeiro e o Brasil compreendesse que preto e branco quando é pobre classe média baixa às vezes se esquece que é branco ou preto, é tudo suburbano mesmo.

Seu Jorge, ainda no Farofa Carioca, cantava sobre a mina que tava “doidinha pra ter neném”, sobre São Gonça (ninguém se lembra de São Gonçalo na música carioca popular! Nem o funk!), sobre os manda-chuvas que não ligam pros contribuintes do imposto de renda (“Jacaré”). Seus contemporâneos cantavam sobre a esmola no ônibus (“Miséria S/A”, O Rappa) e até sobre pena de morte (“Pena de Vida”, Pedro Luis e a Parede). Não preciso dizer que aquele carioca dos primeiros parágrafos comprou com muito orgulho a ideia de que estávamos fazendo música popular não necessariamente e especificamente pagode, rock, reggae ou funk — ainda que englobasse boa parte disso. E era tudo verdade.

Agora, perceba: o personagem criado por Jorge Mário é praticamente este tipo de carioca. Seu Jorge saiu do Farofa Carioca e, não mais que de repente, estava de gola rolê gravando clipe de “Tive Razão” ao lado de Willem Dafoe. Uma das melhores músicas de Jorge Mário, aliás. Mas essa vibe “os gringo adora” obviamente fez a crítica brasileira falar besteira de Seu Jorge. Bastou o artista começou a frequentar o mainstream sangalístico e as vaias chegaram. A crítica queria o Jorge Mário. A mesma crítica que até hoje não engole Djavan e Mano Brown. If y’all don’t like me, blow me.

Perdoem-me os últimos parágrafos. Vamos pra 2015. Seu Jorge lança o segundo álbum dedicado à fase mais popular de sua carreira. Anos antes, ele fora vaiado na Lapa por recitar “Nego Drama“, dos Racionais MC’s — sua interpretação pra esse clássico da verdadeira MPB é impressionante, diga-se. Relembro isso pois em 2012, ano do acontecido, Seu Jorge era integralmente o Seu Jorge, era explícito aquele projeto de artista popularíssimo, evidenciado então pelo grande hit “Mina do Condomínio”. Por isso, ele foi obrigado a escrever na testa: sou um artista popular, quero tocar nas rádios e lotar meus shows – e, quem sabe, não ser medíocre musicalmente. Ele conseguiu tudo isso aí.

“Músicas Para Churrasco II” é um dos melhores álbuns recentes da música popular que o rádio considera popular. Não tem mistério. Seu Jorge sabe de cor o cancioneiro popular e em seu quinto disco conseguiu maturidade suficiente para juntar todas as suas influências e fazer o que precisa: sucesso bem feito. Direto, reto e que, principalmente, dê pra se divertir e dançar. No primeiro volume de “Músicas Para Churrasco”, já tínhamos “A Doida”. Mas é neste álbum que Seu Jorge relembra os meados ali dos anos 90 em que os álbuns de música popular tinham todas as faixas como que destinadas à execução no rádio.

Aqui, temos música sobre aquela amiga que todo mundo fala que “Ela é Bipolar”, sobre “Motoboy”, sobre a “Mina Feia” e até sobre um tipo de gente que não larga o telefone e não consegue conversar ao vivo com mais ninguém (“Na Verdade Não Tá”). Isso sem falar em “Felicidade”, que fala sobre “colar no show do Caetano e cantar Odara até o sol raiar”. Mais do que apelativas, todas as faixas de “Músicas Para Churrasco II” são boas. Lembra de “Carolina”, antigo hit dele, que se aproveitava de “Menina Carolina” de Bebeto? Então, o que Seu Jorge fez dali em diante foi perceber que ser bibelô da crítica no Brasil é coisa bem baixo astral – ainda que seja duro decidir entre a crítica e a Preta Gil/Regina Casé/Ivete Sangalo. Mas, considerando as péssimas brigas que os experts musicais compram, eu acho que Seu Jorge está mais é certo em não pedir permissão para traficante para tocar na favela enquanto ganha uns trocados em cima de gente diferenciada. Tá certo ele.

Por ser mesquinha, elitizada e egoísta, a música brasileira pode até não ser o lugar que Seu Jorge merece, mas Seu Jorge é o artista popular que o Brasil precisa.

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