Sem produção cativante para aqueles menos iniciados no rap, os cariocas De Leve, Marechal e toda a trupe do extinto coletivo Quinto Andar  estabeleciam-se no underground com ótimas respostas aos movimentos do mainstream. Nos versos, ataques gratuitos aos artistas bombados da FM O Dia (a líder de audiência no Rio de Janeiro), aos artistas bombados pela crítica (“Max de Castro é pela-saco”) e aos tradicionais sacos de pancada como Jota Quest e Kelly Key (ouça). Não à toa, Marechal acabou envolvido em uma rixa (ouça) com o paulistano Cabal na qual palavrões e ofensas fizeram a alegria dos mais ávidos pela disputa entre Rio e São Paulo.

Mas tudo isso não foi para muito além dos entendidos. No máximo, De Leve ficou famoso por se apresentar meio doidão no Altas Horas e por ser vaiado em uma edição da Campus Party. Marechal ainda promete um grande disco. Na outra ponta, Marcelo D2 parece ter perdido um pouco da força criativa e Black Alien não lança o seu Chinese Democracy. No meio desse jogo de nonsense, samba e samples espertos está o ConeCrewDiretoria. Os meninos até que se esforçaram para ser pastiche; mas conseguiram vencer uma parte do jogo: lançaram uma boa peça pop intitulada “Bonde da Madrugada, Pt.1”.

Comandados pelo espertíssimo produtor e beatmaker Papatinho, os Cert, Rany Money, Batoré, Maomé e Ari ainda falam muito de honey money e gírias do mundo 4:20. Mas, agora, como se tivessem encontrado a síntese, a repetição do vocabulário não ofende, nem distraí; pelo contrário, inaugura definitivamente para a MPB a discografia do ConeCrewDiretoria.

É claro que ainda há um tipo de jogo que desagrada quem está em busca de aventuras mais próximas do estilo feito no cenário paulistano e que gera uma insatisfação justa. A narrativa da Cone gira em torno de um ambiente festivamente fútil, pouco simbólico para a luta do gênero. No entanto, é injusto o famigerado e batido adjetivo modinha. Não é da esfera do grupo carioca entender os rumos que o gênero tomou (ou pelo menos, creio, eles não são obrigados a repetir mantras já feitos com excelência por rappers de São Paulo).

Por isso, quando Papatinho mostra-se um excelente curador musical é porque preocupa-se mais com a finalidade do que propriamente com a mensagem. Assim, há “Limit to Your Love” de James Blake sendo base para os versos rasos de “Chefe de Quadrilha” como “esse é um pedaço do meu sonho / e ele é do tamanho do mundo” degladiando com outros mais interessantes e nonsenses como “eu não sou Paulinho Gogó mas tô de volta no twist / vai tabaco, vai haxixe, só pra começar o meu mix /
Eu sou vagabundo mermo 10 horas de Netflix /(…) Vou ficar tranquilo com as minas de celulite”, de “Tô de volta no Twist”. Aliás, a faixa mais deleviana do registro com direito a refrão em dicção tão rápida quanto incompreensivel. Isso sem contar o sampler de “Down in Mexico”, do The Coasters, do Tarantino “Death Proof”.

 

O grande dilema de escutar um álbum desse é dividir-se entre a razão e a diversão. Por um lado, a gente sabe que há grandes chances de todo esse conteúdo esfumaçado e moleque cair num buraco negro das piadas internas. A gente conhece um montão de exemplos competentes em destaque tão forte quanto o desaparecimento. Por outro, não podemos ignorar o estabelecimento de uma banda independente cujo os motes criados pelos próprios integrantes extrapolam seu nicho e alcançam meninos e meninas que, Brasil afora, usam moletons e bonés com o cone estilizado que é o logotipo da ConeCrewDiretoria.

Não à toa, boa parte do álbum se dedica à autoafirmação. E, por isso, é cansativo encarar com entusiamo as audições futuras. Mesmo assim, surpresas como “Quazy (Rap da Modinha)” e “A Boa” acabam se destacando da molecagem presente na primeira metade do álbum. A decepção é a justamente um convite muito bem feito a Marcelo Yuka. Ele que já tinha boa presença rap em “Tribunal de Rua” e “Instinto Coletivo“, ambas suas da época de O Rappa, acaba sendo elemento pouco expressivo em “Pronto pra Tomar o Poder”.

Enfim, chama mais de modinha que tá pouco, pode ir no Instagram do Mano Brown e pagar recibo de que não entendeu nada do que é música pop. É isso o que eles querem. E, pelo jeito, eles cumprem com louvor o papel. Se é pra zoar, chama os mulekes enquanto De Leve e Marechal parecem renovar suas energias no estaleiro para continuar um estilo de rap que poderíamos sem prejuízo chamar de trilha sonora para qualquer sketch do coletivo de humor Hermes & Renato.

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